Palestrantes abordaram acesso à prevenção, diagnóstico e reabilitação
Por Instituto Lado a Lado pela Vida
Política Pública
31/08/2023
– Atualizado em 12/09/2023 – 17:19
Último dia do evento terminou com o desejo de realização anual para discussão de alternativas na melhoria do atendimento aos pacientes de câncer no Brasil.
No terceiro e último dia do Seminário de Integração das Unidades de Alta Complexidade em Oncologia (UNACONs) e dos Centros de Alta Complexidade em Oncologia (CACONs), que ocorreu na quinta-feira (31), os palestrantes convidados abordaram o acesso à prevenção, ao diagnóstico e tratamento, além das tecnologias usadas na oncologia. Sediado no auditório Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados, o evento foi uma iniciativa da Comissão de Saúde e da Comissão Especial de Combate ao Câncer no Brasil, e teve participação do Instituto Lado a Lado Pela Vida na organização.
A relatora da Comissão Especial, a Deputada Federal Silvia Cristina, trouxe para a abertura a também Deputada Federal e Secretária de Saúde de Santa Catarina, Carmem Zanotto, que citou algumas das iniciativas que estão sendo aplicadas no estado para garantir acesso aos pacientes que esperam por um diagnóstico ou fazem tratamento oncológico. “Os serviços precisam estar mais perto da população. Em Santa Catarina, implementamos a Linha do Cuidado para o paciente com câncer. Na alta suspeição do câncer, colocamos o paciente na porta de entrada do UNACON ou do CACON. Não basta ter as leis falando dos prazos, os acessos aos exames precisam estar assegurados”, elencou.
Carmem Zanotto também reforçou a necessidade de fortalecimento da atenção primária, que viabiliza diretamente as ações preventivas, contribui para o diagnóstico precoce e permite o encaminhamento adequado do paciente aos serviços de média e alta complexidade. “Quando se trata de câncer, não podemos negligenciar a atenção primária. E no SUS, não podemos confundir cirurgia de câncer com cirurgias eletivas. Não pode deixar o paciente com câncer com os demais que não estão colocando suas vidas ou seus tratamentos em risco”, acrescentou.
Logo após, teve início a palestra com o epidemiologista e professor Chris Harrison, do The Christie NHS Foundation Trust. Diretamente de Manchester (Reino Unido), o médico com ampla experiência em Saúde Pública compartilhou no seminário quais são as principais inovações tecnológicas aplicadas nos centros de tratamento europeus, e como tem sido a abordagem do Reino Unido no tratamento do câncer.
Harrison citou que, atualmente, os principais centros da Europa voltados à oncologia buscam promover uma assistência mais abrangente. “Uma organização que facilita isso é a Organização dos Institutos Europeus de Câncer (OECI), com membros de todo continente e, agora, muitas outras partes do mundo. Eles estão se reunindo e promovendo um atendimento de ponta aos pacientes e trazendo um tratamento mais igualitário e apropriado em todo continente europeu. Essa rede se dedica a fornecer acesso para o atendimento de câncer de qualidade. Além disso, é apoiada pelos programas de certificação e designação, com uma melhoria contínua no atendimento”, enfatizou.
Sobre os avanços e tecnologias da área oncológica, o médico ressaltou os organoides e o sistema de entrega de quimioterapia (new chemotherapy-delivery systems). “Os organoides de câncer são a criação de modelos 3D de células de câncer, que demonstram as células do próprio paciente e permitem que possamos observar melhor o tumor, as proteínas e o que está sendo manipulado fora do corpo. Essa tecnologia, essa abordagem, me parece ser algo que vai fazer uma grande diferença, levando o tratamento diretamente para as células de tumor de forma mais preciso”, destacou.
Após a palestra do professor Harrison, os deputados e convidados fizeram algumas perguntas, envolvendo também o sistema de saúde do Reino Unido, NHS, que foi utilizado, inclusive, para elaboração do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Logo após, o oncologista Daniel Grossi Marconi, apresentou a experiência do Hospital do Amor de Barretos, onde coordena o projeto de Reabilitação.
Para Marconi, o tratamento do câncer deve ser feito em sua totalidade, ou seja, acolhendo o paciente por inteiro. E, segundo ele, esse ainda é um tema pouco discutido. “Não é tratar apenas o diagnóstico, mas olhar desde o começo como está a parte sentimental, psicológica, física, cognitiva, sensorial, auditiva, visual e, especialmente, a física”, complementou.
O médico explicou que essa foi a visão do Hospital do Amor de Barretos, ao longo de várias décadas. Com o passar dos anos, o renomado hospital ampliou sua atenção aos pacientes oncológicos, envolvendo sua reabilitação plena nas mais diversas áreas. “Nosso hospital começou pautado no tratamento oncológico, ou seja, radio, quimio e cirurgia. De repente entendemos a necessidade de diagnosticar precocemente e fazer a prevenção, uma estratégia extremamente custo-benéfica. Anos depois acendeu a luz de que estávamos produzindo um monte de gente com sequelas e agora estamos dando uma atenção grande para a reabilitação. E a história do Hospital do Amor se assemelha muito à da medicina, dentro do tratamento oncológico”, comparou.
Para detalhar como é feito o trabalho do projeto de reabilitação do Hospital do Amor, teve início a apresentação do médico fisiatra Tiago Vieira Fernandes, diretor da unidade do Hospital do Amor em Araguaína, Tocantins, e vice-presidente da Regional Norte da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação. “Trinta anos após o seu surgimento, o hospital iniciou na área da prevenção, que é tão importante na jornada do paciente oncológico. Agora, estamos caminhando com a reabilitação”, disse.
Fernandes também apontou dados sobre os impactos que o câncer, seja pela doença em si ou seu tratamento, representam na vida dos pacientes. O médico fisiatra citou que, pela literatura americana, em 2040 o número de pacientes sobreviventes do câncer nos EUA será de 26 milhões, sendo que mais de 55% dos sobreviventes relatam dificuldades em atividades diárias, como escovar os dentes e se locomover. “As tecnologias de tratamento têm aumentado seu nível de eficiência e estão proporcionando maior sobrevida dos pacientes com câncer. Consequentemente, os pacientes têm ficado com suas sequelas. E o que a gente quer é, além da sobrevivência, que o paciente possa viver com mais qualidade. Esse é o intuito real da reabilitação. Objetivo de reduzir ou eliminar as perdas funcionais, promover inclusão social e qualidade de vida”, enfatizou.
O seminário foi retomado no período da tarde, com o painel “A Judicialização na Oncologia”, moderado pela deputada federal Silvia Cristina, relatora da Comissão Especial de Câncer (CECANCER). O painel contou com participação virtual do conselheiro do Fórum Nacional do Judiciário para a Saúde (Fonajus), Dr. Richard Pae Kim, e do procurador da República do Ministério Público Federal, Dr. Fabiano de Moraes, além de participação presencial do médico oncologista Nelson Teich, da assessora jurídica do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), Mônica Lima, do médico oncologista Igor Morbeck, e da coordenadora geral do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde (DGITS), Luciene Schluckebier Bonan.
Ao longo do painel, os especialistas e representantes do Ministério da Saúde evidenciaram dados sobre a incorporação e judicialização de medicamentos oncológicos que têm maior impacto financeiro para o sistema de saúde brasileiro. “Nosso objetivo é estabelecer estratégias para que a população possa ser bem atendida sem que necessite buscar o poder judiciário. Mas é importante lembrar que o poder judiciário não está, em nenhum momento, abrindo mão de suas competências, muito pelo contrário. Temos buscado investir para dar maior qualidade, o melhor atendimento, da forma mais eficiente e rápida possível”, comentou o conselheiro do Fonajus, Dr. Richard Pae Kim.
De acordo com o oncologista Igor Morbeck, a judicialização é um aspecto crítico dentro da jornada do paciente oncológico no SUS, e passa não só por questões de gestão de recursos, mas é também um reflexo da questão social, que abrange diversas esferas. “De um orçamento total do Ministério da Saúde, que gira em torno de R$711 bilhões, em 2022 R$1,1 bilhão foram gastos apenas em judicialização. Esse impacto na saúde é muito grande, mas nem sempre é fácil de medir. Por isso, é fundamental mapear os dados sobre judicialização no país para que cada caso seja analisado. O poder judiciário tem um protagonismo e relevância incríveis na tomada de decisão, mas o equilíbrio nessas decisões é fundamental para que possa ser assegurado o direito de todos nos setores públicos e privados”, acrescentou.
O último painel do seminário finalizou a programação do evento. Intitulado “CACONs e UNACONs – Reconhecimento de quem faz”, também foi moderado pela Deputada Federal Silvia Cristina, e contou com a participação do diretor técnico do Hospital Napoleão Laureano, Dr. Rodrigo Marmo da Costa e Souza, da diretora assistencial do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, Dra. Cristina Moro, e do presidente da Associação Combate ao Câncer de Goiás, Dr. Jales Benevides.
Durante o painel, diretores e representantes dos CACONs e UNACONs de diferentes estados do Brasil mostraram dados de sucesso e ferramentas utilizadas e compartilharam os maiores desafios enfrentados no dia a dia – desde a gestão financeira, até como tomar as melhores decisões pensando na jornada de cada paciente oncológico.
O diretor técnico do Hospital Napoleão Laureano, Dr. Rodrigo Marmo da Costa e Souza, lembrou que os estudos em saúde indicam que o câncer deve se tornar a principal causa de mortalidade até 2030 e, nesse cenário, os CACONs e UNACONs serão primordiais. “Eles não podem ser excluídos das discussões, pelo contrário, devem ser mais fortalecidos”, disse.
E a diretora assistencial do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, Dra. Cristina Moro, reforçou a necessidade de integração entre os órgãos e instituições envolvidos no diagnóstico e tratamento oncológico. “Antes de comemorarmos o sucesso dos CACONs e UNACONs, é importante se unir na luta do que está faltando para a oncologia no país, o que é muito. E agora, mais do que nunca, com o apoio do parlamento, vamos lutar ainda mais para que a gente consiga o que estamos esperando há bastante tempo”, pediu.
Conforme o presidente da Associação Combate ao Câncer de Goiás, Dr. Jales Benevides, apenas a dedicação das equipes que atuam nos serviços de saúde não é suficiente para abranger toda a demanda existente. “Nós temos muita gente trabalhando de 7 horas da manhã até às 2h da manhã para dar conta de atender todos os pacientes e, mesmo assim, a conta não fecha. A gente sabe que o nosso sistema único de saúde é bom e importante, mas não paga a integralidade do tratamento oncológico. Nós temos muita coisa que podemos melhorar. E a oncologia não pode parar e nem esperar”, frisou.
O encerramento contou, ainda, com um vídeo em que o deputado federal Weliton Prado, que preside a Comissão Especial sobre o Combate ao Câncer no Brasil, agradeceu e parabenizou os organizadores e participantes do seminário. “Agradeço não só somente pelas contribuições e participação, mas por tudo que vocês fazem por mais de 7 milhões de pacientes que passam todos os anos nos CACONs e UNACONs, com todas as dificuldades. Vamos tornar oficial a realização anual dos seminários para discutir com vocês as alternativas. Queremos agora intensificar e aprovar no Senado a Política Nacional de Enfrentamento ao Câncer, e garantir sua implementação. Também garantir a implementação da Política Nacional da Oncologia Pediátrica, a criação de uma rubrica única no Ministério da Saúde com fundo nacional para o enfrentamento ao câncer, garantir recursos para os cuidados paliativos com investimento e financiamento do SUS. Isso tudo realmente é muito importante e tudo isso só vai sair do papel com a efetiva participação no dia a dia de vocês. Nossa eterna gratidão, muito obrigado por tudo que vocês fazem pelos pacientes com câncer no Brasil”, concluiu.
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