Outubro de 2016. Instituto Kaiser Associates e Lado a Lado Pela Vida
Um estudo realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) em parceria com a Clapbio – Centro Latino-Americano de Pesquisa em Biológicos revelou importantes insights sobre a segurança medicamentosa de pacientes que enfrentam doenças crônicas, como cardiovasculares, câncer e autoimunes. A pesquisa, divulgada em outubro de 2016, buscou identificar os principais riscos envolvidos no tratamento dessas doenças e fornecer subsídios para a atuação do Instituto ao longo do ano de 2017.
O escopo da pesquisa abrangeu a jornada do paciente antes e depois da prescrição de medicamentos específicos para doenças crônicas, focando em tipos variados de câncer, doenças cardiovasculares e autoimunes como a diabetes tipo 1, artrite reumatoide, esclerose múltipla e psoríase.
A abordagem metodológica da pesquisa envolveu duas frentes complementares: uma quantitativa, que entrevistou 210 pacientes em tratamento nas cidades de São Paulo, Porto Alegre e Salvador; e outra qualitativa, com a participação de 30 médicos de diversas especialidades e provenientes de diferentes regiões do Brasil, incluindo oncologistas, cardiologistas, endocrinologistas, reumatologistas, neurologistas e dermatologistas.
Os resultados da pesquisa revelaram informações relevantes tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde. Um ponto de destaque foi que o diagnóstico das doenças autoimunes geralmente é feito por especialistas, enquanto nas doenças cardiovasculares e cancerígenas o especialista assume a responsabilidade pelo tratamento.
Em geral, os pacientes mostraram-se satisfeitos com as informações recebidas durante o diagnóstico, embora muitos deles não tenham sido devidamente informados sobre os custos do tratamento. No entanto, constatou-se que pacientes crônicos em tratamento estão, em sua maioria, satisfeitos com as informações fornecidas pelos médicos em relação às suas condições de saúde.
Uma questão preocupante diz respeito à falta de informações sobre medicamentos alternativos aos prescritos. Além disso, nem todos os pacientes em tratamento crônico estão satisfeitos com as informações recebidas sobre os medicamentos que estão utilizando. Verificou-se também que pacientes com menor nível de escolaridade tendem a questionar menos as informações fornecidas, o que pode comprometer seu acesso à informação e a capacidade de questionar o profissional de saúde.
Outro aspecto crítico diz respeito ao desconhecimento e falta de orientações sobre a forma correta de aplicar e armazenar medicamentos, bem como os possíveis efeitos colaterais. Médicos relataram que dedicam até uma hora para explicar tudo ao paciente, mas na rede pública, por conta do alto volume de atendimentos, essas consultas tendem a ser mais rápidas. Surpreendentemente, pacientes da rede pública demonstraram maior satisfação em relação ao atendimento recebido.
Uma constatação alarmante foi que uma parcela significativa dos médicos não explica adequadamente a forma de aplicação dos medicamentos autoinjetáveis, aumentando o risco de erros na administração. Além disso, cerca de um terço dos médicos não relatam aos pacientes sobre os efeitos colaterais, o que pode resultar em negligência desses efeitos.
A pesquisa também evidenciou que pacientes com maior nível de escolaridade costumam ler mais a bula dos medicamentos, mas, curiosamente, os pacientes com doenças autoimunes mostraram maior receio em usar medicamentos. Mesmo que os pacientes afirmem seguir as orientações médicas, os médicos observam uma baixa adesão ao tratamento, apontando que alguns pacientes têm dificuldade em tomar as doses nos horários adequados ou param de tomar os medicamentos quando os sintomas desaparecem.
No que se refere ao acompanhamento, a maioria dos pacientes está realizando-o, porém médicos relatam que muitos pacientes demoram a retornar às consultas ou abandonam o tratamento, principalmente quando não sentem mais os sintomas. Em consultas de acompanhamento, os médicos monitoram a evolução do tratamento e oferecem orientações adicionais, mas a limitação de tempo nas consultas da rede pública pode prejudicar o atendimento.
Uma preocupação adicional é a subnotificação de efeitos adversos dos medicamentos. Pacientes costumam relatar os efeitos, mas muitos médicos só reportam à farmacêutica quando se trata de um efeito que não consta na bula. A conduta dos médicos em relação aos efeitos adversos é, em geral, orientá-los apenas sobre os mais usuais.
Além disso, a pesquisa também revelou a falta de conhecimento sobre medicamentos biológicos, tanto entre pacientes quanto entre médicos, o que pode levar a preconceitos e dificultar sua adoção. Fatores como custo, risco de efeitos adversos e falta de conhecimento em especialidades com pouca disponibilidade desses medicamentos foram apontados como principais barreiras para sua prescrição.
Ao avaliar especificamente as doenças cardiovasculares, observou-se que muitos pacientes só procuram o médico quando já apresentam sintomas, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento adequado. Além disso, muitos pacientes ignoram a gravidade de suas doenças crônicas, negligenciando a adesão ao tratamento e os acompanhamentos necessários.
Em relação às doenças autoimunes, a pesquisa revelou que a demora para procurar ajuda médica é comum, uma vez que os pacientes frequentemente têm dúvidas sobre qual especialista procurar. Erros no diagnóstico, principalmente para artrite reumatoide, também foram identificados como fatores de risco.
Quanto ao tratamento do câncer, verificou-se que uma parcela significativa dos pacientes negligencia sintomas ou não os apresenta, tornando o diagnóstico mais complexo. No entanto, a adesão ao tratamento de câncer foi consideravelmente maior do que em outras doenças, possivelmente devido ao estigma associado à doença.
Em síntese, a pesquisa trouxe à tona os principais riscos relacionados à segurança medicamentosa nas etapas anteriores à prescrição e ao longo do tratamento. A demora para procurar ajuda médica diante de sintomas perceptíveis e a falta de orientação sobre medicamentos e acompanhamento foram identificados como desafios importantes. Profissionais de saúde, laboratórios, agências de vigilância e comunidade médica têm muito trabalho à frente para melhorar a segurança medicamentosa e garantir uma abordagem mais efetiva no tratamento de pacientes com doenças crônicas.
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