Nosso ponto de vista sobre decisão em relação ao câncer de próstata
Por Instituto Lado a Lado pela Vida
Saúde Integral do…
01/11/2023
– Atualizado em 01/11/2023 – 14:01
Já se passaram 15 anos desde que o Instituto Lado a Lado pela Vida, em 2008, deu o primeiro passo no Brasil para dar luz a um tema que, até aquela época, era muito pouco divulgado para a população e chegava a ser considerado um tabu entre os homens brasileiros: o câncer de próstata.
A Saúde do Homem foi a primeira causa abraçada pela Instituição, a razão de sua fundação e tema a que se dedica diariamente para informar e instrumentalizar os homens com conteúdos qualificados e fortemente baseados na ciência, acerca da prevenção e diagnóstico precoce de doenças, de forma a conscientizá-los sobre os principais impactos e agravos à saúde. Com esse propósito, depois de três anos produzindo e divulgando informações sobre o tema, em 2011, criou no Brasil a Campanha Novembro Azul, que se tornou o maior movimento nacional em prol da saúde do homem no país.
O Instituto Lado a Lado pela Vida tem orgulho de ter sido e ainda seguir como a única organização da sociedade civil a defender uma Linha de Cuidados para a Saúde do Homem alinhada à uma política pública forte e dedicada às reais necessidades enfrentadas pelos brasileiros em sua jornada no Sistema Único de Saúde (SUS), desde a prevenção de doenças, o diagnóstico precoce, os tratamentos adequados, a reabilitação e, também, os cuidados paliativos.
Sendo assim, neste 1º de Novembro de 2023, não poderíamos deixar de externar nosso posicionamento contrário à Nota Técnica No 9/2023 – COSAH/CGACI/DGCI/SAPS/MS que recomenda o não rastreamento populacional do câncer de próstata no Brasil.
Esse é um assunto de extrema relevância e acreditamos que além do fato de que o Brasil tem uma realidade socioeconômica e cultural bastante distinta dos países citados na recomendação, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido, essa decisão deixa de fora um importante dado ao optar pelo não rastreamento dos homens no nosso país: o fato de a população afrodescendente ter o dobro de chance de desenvolver o câncer de próstata.
O Instituto Lado a Lado pela Vida é totalmente a favor de que decisões na saúde sejam tomadas levando em conta a ciência e estudos científicos como pontos preponderantes. No entanto, mundialmente, há significativa desigualdade em pesquisas clínicas o que faz a população negra ser pouco representada nesses estudos para câncer de próstata, principalmente relacionado aos desfechos clínicos importantes, tais como resposta a tratamentos, sobrevida e qualidade de vida.
Não é o Instituto Lado a Lado pela Vida quem afirma que a população afrodescendente tem duas vezes mais chance de ter o diagnóstico da doença, em comparação aos homens brancos. Inúmeros e renomados centros de pesquisa fazem esse alerta. O que sabemos é que a população afrodescendente tem maior sensibilidade androgênica, o que significa que o organismo dos homens negros é mais sensível à ação da testosterona, o que amplia a possibilidade do desenvolvimento do câncer de próstata.
Esse nosso argumento faz ainda mais sentido após o anúncio pelo IBGE 2022, mostrou que em dez anos aumentou 32% o número de pessoas no Brasil que se declaram pretas e quase 11% os que se declaram pardas, nomenclatura usada pelo próprio IBGE. Não há na mostra a indicação de quantos são os homens com mais de 40 anos que se declararam pretos ou pardos, mas considerando que homens são 48,9% da população brasileira de mais de 203 milhões de pessoas e que 19,7% da população é composta por homens com idade entre 40 e 80+ anos, temos uma boa referência do que estamos falando.
Sabemos, também, que as diretrizes internacionais variam em relação ao rastreamento do câncer de próstata. Alguns países, como os Estados Unidos, têm diretrizes específicas. Lá, por exemplo, o United States Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda que os homens discutam com seus médicos sobre o rastreamento do câncer de próstata entre as idades de 55 a 69 anos. No entanto, a decisão final deve ser individualizada e baseada nas preferências do paciente, nos riscos e benefícios potenciais. Canadá e a Austrália também têm diretrizes semelhantes que recomendam a discussão entre médicos e pacientes sobre o rastreamento do câncer de próstata, considerando os riscos e benefícios envolvidos.
Em alguns países, o rastreamento de rotina para câncer de próstata não é recomendado para a população em geral. No Reino Unido, outro exemplo citado pela Recomendação do Ministério da Saúde, sugere-se que os médicos informem os homens sobre os benefícios e riscos do rastreamento, para que eles possam tomar uma decisão informada. O rastreamento pode ser considerado em homens com maior risco, como aqueles com histórico familiar de câncer de próstata, ou em casos em que os sintomas indicam a necessidade de investigação. O argumento principal contra o rastreamento é que os testes de triagem podem levar a resultados falsos positivos, que podem levar a tratamentos desnecessários e efeitos colaterais indesejados ou ainda diagnosticar a doença de baixo risco, a qual não haveria necessidade de tratamento imediato.
Ocorre que todos os países mencionados como referência pelo Ministério da Saúde têm índices distintos do Brasil no que se refere à educação da população, além do que já mencionamos sobre a situação socioeconômica e, por consequência, de acesso à saúde. Nos entristece, mas a realidade é a de que, no Brasil, esse acompanhamento contínuo e o diálogo entre paciente/médico para que seja tomada a decisão compartilhada está longe de acontecer.
Outro ponto que entendemos mereça comentário é a prática da vigilância ativa, preconizada na Recomendação. Neste caso, para a tomada de decisão por esse protocolo, é preciso que o paciente já tenha recebido o diagnóstico do câncer de próstata e, embora totalmente adequada para casos em que o tumor seja considerado de baixo risco, a vigilância ativa exige controle e acompanhamento constantes – em média a cada seis meses – e, necessariamente, que nesses intervalos seja realizado o exame de ressonância magnética da próstata, além da dosagem do PSA (Antígeno Prostático Específico) e, eventualmente, novas biópsias. Com esses requisitos mandatórios, fica fácil imaginar o quão difícil seria para um paciente elegível a essa prática, ter acesso a esse protocolo no Sistema Único de Saúde (SUS).
Além disso, o que mais chama a atenção é que, no Brasil, em torno de 18% dos pacientes já apresentam o câncer de próstata em estágio avançado, muitas vezes com doença metastática ao serem diagnosticados, o que é um número elevado em comparação aos demais países e que faz com o as possibilidades de tratamento e consequentemente de cura sejam bastante reduzidas, além de que a qualidade de vida do paciente, nessa situação, será fortemente comprometida. Podemos afirmar com segurança que esse índice pode ser menor se o rastreamento fosse implementado como rotina na população masculina no Brasil, principalmente para os homens que vivem em locais afastados dos centros urbanos e que têm ainda menos possibilidade de acessar os serviços de saúde.
No geral, as principais sociedades médicas de oncologia e urologia recomendam que aqueles com maior risco de desenvolver câncer de próstata, como quem tem histórico familiar da doença ou os afrodescendentes iniciem o rastreamento mais cedo, por volta dos 40 anos. Já para aqueles com menor risco, a recomendação é iniciar em torno dos 50 anos. Enfatizamos que isso não impede que o paciente converse com o médico responsável pelo seu atendimento, para entender o seu histórico pessoal e familiar e, assim, obter orientações específicas para a tomada da decisão sobre o caminho clínico a seguir.
No entanto, somos enfáticos em apoiar a recomendação de que a detecção precoce é fundamental para aumentar as chances de tratamento bem-sucedido e lembramos que a maioria dos casos de câncer de próstata não apresenta nenhum sintoma, mesmo nos casos em que o tumor já está em alto grau de desenvolvimento.
Marlene Oliveira
Fundadora e presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida
Dr. Igor Morbeck
Oncologista Clínico – especialista em tumores urológicos e torácicos, Membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida
Você também pode se interessar por
Doenças cardiovasculares matam 400 mil brasileiros…
Em setembro, campanha alerta para a prevenção e o cuidado do coração
Saúde do Coração
01/09/2026
Instituto Lado a Lado Pela Vida e conscientização …
Parceria leva a prevenção do câncer além de outubro e novembro
Saúde Integral do…
25/08/2026
Instituto Lado a Lado Pela Vida participa da agend…
Saúde do Coração
19/08/2026
Câncer de pulmão: por que o diagnóstico chega tard…
Marlene Oliveira traz dados do Data Câncer 360º
Câncer
05/08/2026
Respire Agosto "Toda história merece mais fôlego" …
Instituto Lado a Lado pela Vida alerta para o câncer de pulmão
Câncer
31/07/2026
Conitec abre consulta pública sobre câncer de mama
Consulta discute incorporação do ribociclibe ao SUS
Saúde da mulher
30/07/2026